sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Era proibido proibir

Caetano e Gil acharam liberdade fora do Brasil
Dizem que "Ou a gente passa o tempo, ou o tempo passa a gente". Para alguns ícones de nossa cultura, o tempo não passou por eles. O tempo atropelou, deu ré, passou de novo, e foi embora esmagando o que restou. No caso, não foram atropelados seus corpos que, na maioria, estão na sétima década de vida, mas sim suas consciências, que um dia cunharam clássicos como "Eu digo não ao não" e "Afasta de mim esse cálice". 

Pois é. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Milton Nascimento já foram jovens artistas, intrépidos, ousados, revolucionários. Agora são parte de um grupo ironicamente chamado de "Procure Saber", e lutam para que biografias não autorizadas não possam ser vendidas. 

Todos esses figurões iniciaram suas carreiras numa época em que tudo o que se queira era "procurar saber", mas não se podia. Livros, filmes, artigos, peças, músicas, reportagens, tudo era censurado e o povo só tinha a informação oficial para se contentar. Graças ao sacrifício de muita gente, esses tempos ficaram pra trás. Hoje a censura existe, só que mais suave e sutil. Julgamos ter a liberdade de encontrar informações que mostram o outro lado da moeda, de qualquer coisa ou qualquer um. E isso é bom, nos permite novos olhares sobre as coisas. 
Biografias não autorizadas geralmente são as melhores

Por exemplo: seria triste lermos uma biografia de Che Guevara que mostrasse sua preocupação social, sua inteligência, carisma, boas intenções, mas não revelasse sua participação em tribunais de execução ou suas opiniões alicerçadas na base da violência. Como seria chato ler sobre Fernando Henrique Cardoso, conhecer seu perfil estadista, a habilidade política, seu casamento feliz com a Dona Ruth, e não sabermos que ele tem um filho com uma ex-jornalista da Globo e que mora com a mãe na Europa. 

Coisas assim, só sabemos porque ainda se pode escrever sobre isso, falando de histórias de alcova que os biografados não gostariam que viessem à tona. Mas, para os medalhões da MPB, isso agora tem que ser proibido. O problema é que isso é censura, obscurantismo. Além disso, não há nada mais chato e inútil do que ler a história de alguém do jeito que esse alguém quer que ela seja, com deslizes calculados, sucessos aumentados, escândalos encobertos, enfim, um panfleto chapa-branca. 


O que aconteceu com a cabeça desses artistas? O que mudou nos princípios defendidos nos anos 60? A resposta é simples e triste: dinheiro. Naquela época ainda não eram ricos. Hoje são, mas querem mais. É isso que move o interesse deles em proibir essas biografias. Paula Lavigne, ex-mulher de Caê e porta-voz da associação diz: "pessoas públicas também têm direito à intimidade e vida privada". Concordo. Mas, depois ela fala o que interessa pra eles: "se alguém quiser escrever uma biografia e publicá-la na internet sem cobrar, tudo bem. O problema é lucrar com isso". Que coisa não? A vida exposta de graça não ofende a intimidade do artista, mas se cobrar ofende? Pelo jeito, só ofende porque não pinga na conta deles também. 

Djavan chegou a dizer: "editores e biógrafos 
ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento e indignação". Talvez Djavan não saiba, mas biógrafos geralmente são jornalistas que pesquisam por anos e anos, entrevistando dezenas de pessoas, levantando arquivos antigos, investigando entrevistas já realizadas, revistas, jornais, filmes e tudo que diga respeito ao biografado. É um esforço desgastante. Editoras são empresas que precisam se manter vivas num mercado acirrado, em um país em que quase 50% das empresas fecham após três anos. Logo, é claro que eles ganham dinheiro com isso. Alguém trabalha, alguém paga, alguém compra. Se o biografado não gosta do que dizem, processe por dano moral! A Lei pra isso já existe. 

Paula Lavigne adoraria ter nascido em outra época

“Vamos correr o risco de estimular biografias sensacionalistas”, disse Paula Lavigne. Só que esse é o melhor risco, típico de democracias. "Ninguém pede para ler antes o que é publicado em jornais", lembrou Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros. E jornais são vendidos, inclusive os sensacionalistas. 

O que dói em nossas almas é ver os heróis da MPB, sujeitos discutidos e biografados, outrora perseguidos e presos por causa de sua expressão de liberdade, agora querendo censurar a liberdade dos outros. E não pela honra, mas por dinheiro. Uma postura que mistura o totalitarismo de Stalin com o capitalismo selvagem de Murdoch: o pior dos mundos. Sempre achei burrice gente que nasce, cresce, reproduz e morre, tendo exatamente as mesmas opiniões sobre tudo. 


Mudar de ideia, muitas vezes, é sinal de maturidade e humildade. Mas, corromper princípios, no caso a liberdade de informação e expressão, não é saudável nem inteligente. Tenho esperança de que esse chilique ditatorial mercantilista, reacionário, mal disfarçado de resguardo pela moral e ética, querendo inibir a sociedade, dê com a cara na porta da Constituição, que garante a liberdade de trabalho dos biógrafos e editores. Afinal, Chico, Caetano e companhia: “apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia, la laiá la laiá”.


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Ainda precisamos de guitar heros

Quase invisível na mídia nacional, Mayer lotou o Anhembi
"Grupos com guitarras estão saindo de moda". Com essa profecia digna de Mãe Dinah, um executivo de gravadora recusou contratar uma banda estreante nos anos 60. No caso, eram uns moleques que se chamavam de Beatles.

Do mesmo jeito que a maior banda pop da história chegou a ser preterida pelo som do momento (na época o soul da Motown bombava), inúmeros casos semelhantes acontecem todos os dias. E o principal motivo? O mercado diz para as pessoas do que elas devem gostar. Triste, é constatar que muita gente acaba mesmo gostando do que lhes enfiam goela abaixo. 

Em 19 de setembro, cerca de 60 mil pessoas se apertaram para assistir John Mayer, na Arena Anhembi, em São Paulo. São 60 mil brasileiros, em sua maioria jovens, que pagaram preços consideráveis para assistir ao primeiro show no Brasil de um músico que toca exatamente o que não é moda nessas terras: "músicas com guitarras". Aqui, o sentido não é a guitarra em si, mas seu protagonismo na música. O Brasil é rico em cultura musical, estilos, formas, e já produziu coisas como Chico Science e Nação Zumbi, Novos Baianos, Sepultura, Marisa Monte, Yamandú Costa, Só Pra Contrariar, entre outras pérolas de linguagens totalmente distintas.
Esses são os grandes expoentes da música nacional hoje

Mas, para os efeitos do estrelato, só existem porcarias. A mídia cultural, estimulada ($) pelas gravadoras, só divulga Michel Teló, Ivete Sangalo (ainda), Naldo, Anitta e a turma do Quadradinho de Oito. Esses são alguns ícones atuais da "música/mídia brasileira", e representam o que há de "melhor" no sertanejo, axé, funk e afins. Alguns já estão milionários, bem como suas gravadoras. 

Gosto é gosto, e cada um tem o seu. O problema aparece quando gostar desses tipos, muitas vezes (sempre há exceções), é apenas preguiça mental e falta de personalidade, sujeita às vontades da televisão e do rádio. Gostam porque todo mundo gosta, porque toca na balada, porque apareceu no Fantástico, porque a letra é animada: "Eu meto tudo, eu pego firme pra valer".

Guitarra de Mayer entrega quem é seu ídolo

Num ambiente cultural em que essas coisas fazem um baita sucesso, imagine a resposta de uma gravadora no Brasil que seria dada a um músico que toca rock/pop/blues/romântico com letras pessoais e grandes doses de guitarra para uma gravadora aqui? Provavelmente dirão "Grupos com guitarras estão saindo de moda. O negócio agora é dupla sertaneja e blá blá blá". Nada contra esses caras. Como disse antes, gosto é gosto. Mas, quando não sobra espaço para opções, aí sim sou contra.  

No Brasil, negariam um contrato a John Mayer, que faz sucesso suficiente no mundo pra juntar aquelas 60 mil pessoas, que o descobriram apesar da campanha na TV para conhecermos o novo sucesso do Restart (esse durou pouco mesmo...). Mayer também foi escalado para o Rock in Rio, expondo-se ao grande público. Mas seu show não tem dançarinas seminuas, coreografias, não manda tirar o pé do chão, e o absurdo total: ele se deixa levar por sua excelente banda, ficar solto rumo a solos que misturam fúria e sensibilidade, evocando Eric Clapton, Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan.

Hendrix em 1967, e a guitarra que inspirou a de Mayer

O público, formado por brasileiros, dentre os quais muitos que também pulam ao som de Naldo e companhia, se empolgou! Provaram que só não consomem mais esse tipo de música porque ela simplesmente não aparece, porque no Brasil só é bom se passar na Globo, se o Neymar dançar durante um jogo, se aparecer no Criança Esperança, se fizer dueto com Caetano Veloso. Fato é que as mulheres saíram querendo casar com o guitarrista, e os homens querendo tocar e cantar como ele. 

John Mayer homenageou Tom Jobim em suas melodias e também citou Hendrix, de quem ele não arranha a superfície, mas absorveu a atitude. Isso não está nas fórmulas do sucesso fonográfico brasileiro. Mayer nunca seria conhecido no mundo se tivesse nascido aqui. Teria que viver de trocados, tocando no limitado circuito de bares que valorizam esse som, ou tentar a sorte lá fora. Talvez seja prematuro considerá-lo um "guitar hero", mas, se ele arrebanhou 60 mil no Anhembi, num Brasil mergulhado em porcarias musicais, e sem aparecer antes no Fantástico, certamente já assegurou seu lugar de honra entre o público que gosta de talento, mais do que de marketing.

sábado, 31 de agosto de 2013

Mais Médicos (Dispostos)

O famigerado, polêmico e controverso Programa Mais Médicos, afinal, é bom, ruim ou um pouco dos dois? O problema tem mil perspectivas e olhares. Abaixo, segue o meu, definitivo até que me provem o contrário:
  
Cenário dos sonhos de muitos: tudo limpo, novo e branco
Dizem que os cubanos não têm competência para atuar no alto nível da medicina brasileira. Errado. Isso é tentativa de confundir as coisas, misturar o conceito geral da medicina brasileira (de alta qualidade científica) com o que, de fato, os médicos estrangeiros vêm fazer aqui. Eles não vão para o Einstein, o Sírio Libanês ou o A.C. Camargo. Eles vão para onde não existe medicina nenhuma. 

A alta qualidade só está disponível para gente rica, portanto não há uma “imagem a zelar” para o povo. E outra, a medicina cubana é respeitada em outros países. Na Espanha, por exemplo, um médico cubano precisa de três meses para se homologar. Tempo menor do que os médicos do México, Chile e Argentina.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o modelo cubano como um dos melhores para o resto do mundo. Médicos cubanos são muito presentes em inúmeras missões internacionais, como a que está sendo feita no Brasil, incluindo países como o Haiti, África do Sul, Venezuela e outros em que a miséria é grande. Em Cuba, nas 25 faculdades de medicina, estudam estrangeiros de 113 países, inclusive filhos do Paulo Mendes, que é presidente do Sindicato Médico do RS. Lá, o curso de medicina dura seis anos e a especialização vai de três a quatro. Em Cuba há seis médicos para cada mil habitantes, o triplo do recomendado pela OMS, por isso mesmo o país disponibiliza tantos para missões internacionais.

Apoio dos médicos brasileiros aos cubanos
A taxa de mortalidade em Cuba é 4,6 em cada mil crianças, e no Brasil é de 15,6. A questão é que a medicina deles é mais focada na Atenção Básica, e não um modelo hospitalocêntrico como o brasileiro, em que o legal é usar um tomógrafo computadorizado ou órteses e próteses gringas a R$ 40 mil, para todo mundo ganhar em cima. 

Os médicos cubanos, em geral, têm mais de dez anos de profissão, estiveram em missões de outros países, fizeram residência, 20% com mestrado e 40% com mais de uma especialização. Será que serve para a dona Maria lá no Interior do Brasil e que está, enquanto você lê isso, com o filho ardendo em febre, sem ter com quem se consultar?

Dizem que por trás do Programa há ideologia socialista, financiando Cuba. Ignoram o fato de que a ilha está cada dia mais capitalizada, que não há nem sombra de projeto de reconstrução pelo socialismo, que Raúl Castro está abrindo o mercado gradativamente e que a pobreza persiste muito mais pelo cruel, bizarro e anacrônico embargo dos Estados Unidos do que por caprichos caudilhistas.

Médicos cubanos são aceitos mundo afora
Dizem: “R$ 10.000,00 qualquer médico ganha na capital, não é oferecendo esse valor que irão atraí-los para o interior. A solução pra isso é simples: planos de carreira”. Concordo. Devem mesmo exigir isso. Mas, enquanto não acontece, muitas cidades aumentaram os salários, chegando a absurdos R$ 33.500,00 oferecidos por uma prefeitura no Amapá. Mesmo assim, não surgem médicos interessados e a população fica a ver navios. Caramba, quanto eles querem ganhar?

Ao que parece, a maioria dos médicos quer, além do espetacular salário, uma superestrutura urbanizada para morar. Nas faculdades, a maioria (sempre há exceções) quer ser médico pensando em ficar rico, viajar pra Europa todo ano, usar o “Dr” (sem doutorado) antes do nome. Mas, por “azar” da natureza da profissão, pessoas que moram no meio do mato também ficam doentes e precisam de... Contadores? Mecânicos? Astronautas? Não... Precisam de médicos! Pena que lá só chegam os que são solidários, sensíveis à necessidade humana, com vocação e preocupação com o próximo.

Não vai ter avenida para passear de jaleco e estetoscópio pendurado no pescoço. Só mato, gente pobre, desdentada, doente e fedida. Não é bonito. Mas se o cara não gosta, então seja médico na Noruega, ou vire engenheiro nuclear em algum laboratório. Não acho que todos devam ter esse perfil. Mas, como disse, não adianta esse perfil em um matemático, tem que ser médico. Falta de estrutura é um problema, claro, e devemos seguir cobrando o Governo. Mas não acho que se deva esperar as condições ideais para ir a esses lugares. São situações de emergência. Nessas horas, a vocação de alguns profissionais salta aos olhos. São os que mais se lembram do juramento de Hipócrates: “Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder”. Mesmo sem mil exames e tomógrafos à disposição, é possível melhorar a condição de saúde das pessoas.

Há muitos locais com estrutura, mas o problema é esse aí
Argumentam que eles vão ter dificuldade com o idioma. Oras, até parece que espanhol é grego! “Para Ouro Branco, pode vir médico até da China que a gente recebe de braços abertos”, diz o prefeito de Ouro Branco (BH) Atevaldo Cabral da Silva.

Dizem que é trabalho escravo. A verdade é que o artigo 149 do Código Penal aponta que trabalho escravo requer: condições degradantes de trabalho, jornada exaustiva, trabalho forçado e servidão por dívida. Por mínima que seja a estrutura que eles terão para trabalhar, a comparação chega a ser patética. Se vão ganhar pouco, a escolha é individual e ninguém os forçou a nada. Todas as declarações deles no Brasil, até agora, mostram que eles querem ajudar e o salário não é prioridade.

Revista Veja elogia o mesmo programa em 1999, com FHC
Dizem que após 11 anos de governo, às vésperas de uma tentativa de reeleição, saúde virou emergência. Pode ser. O caráter eleitoreiro está implícito. Mas isso não anula a emergência da dona Maria lá no Interior do País. Ela não está nem aí pra eleição, precisa sim é de um médico, pra ontem! Não interessa se é de Cuba ou da Conchinchina, se é capitalista ou socialista. Além disso, a crítica pelo viés político é rasa e frágil. 

Em outubro de 1999 a tão amada revista Veja achou linda a iniciativa de importação de médicos cubanos: “O milagre veio de cuba”, “os cubanos são bem-vindos”, disseram. O que tornou o programa tão ruim que justificasse uma abordagem como a feita em julho desse ano? O que mudou nos médicos cubanos? Ah... mudou apenas o governo. Eles não criticam visando ao benefício dos médicos e da população, mas apenas pela legenda política do governo envolvido.

Ao todo, são 701 municípios em que ninguém se candidatou a ocupar as vagas disponíveis. Médicos brasileiros não se apresentaram, mas os cubanos sim. Por causa da carência sofrida pelos mais pobres, só posso agradecer a disposição deles (que os nossos não tiveram) e torcer para que dê tudo certo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Sem-cretismo religioso

 Alguém já viu um corinthiano torcendo pro palmeiras? Um malufista achando que o Lula é um estadista? Um vegetariano convicto se deliciando no rodízio? Se virmos, alguma coisa estaria bem errada, não é? Pois bem, então por que a mesma regra da coerência não se aplica a uma enormidade de brasileiros quando o assunto é religião? 

É muito fácil achar por aí um católico-espírita, um evangélico-supersticioso, um frequentador de candomblé que também vai à missa, um espírita que joga flores pra Iemanjá. É o tal sincretismo religioso, a mistureba de duas, três, quatro, mil crenças em uma. Parece ser algo muito bom do ponto de vista sociológico porque promove a aproximação de culturas de povos distintos, em vez de aumentar as diferenças e o isolamento. Mas, sob o olhar das concepções religiosas, é uma aberração sem tamanho.

Um sistema de fé (decente), assim como qualquer visão de mundo, em qualquer sentido, tem seus princípios, pilares e bases bem definidos. E certamente vão existir figuras antagônicas que compõem esse cenário, de maneira harmoniosa. Por exemplo, não dá pra ser marxista e, simultaneamente, ver o sistema capitalista como uma saudável solução para o mundo. Se alguém professa uma ideia misturada dessas, então não entendeu nenhuma das propostas e está totalmente perdido.

No caso da fé, quando um sistema é capenga e cheio de brechas, falhas e contradições, é previsível que os adeptos dessa crença a misturem com outras, exatamente por causa do caráter frágil e mal postulado, buscando um conjunto mais sólido pra se apoiar. Por isso, o que me chama a atenção é a mistura de qualquer outra fé com o Cristianismo, que é uma fé tão clara e específica. 

Qual é o sentido de mães-de-santo lavarem a escadaria da Igreja Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador? Com base em quê alguns grupos equiparam Exu a Santo Antônio, Iansã a Santa Bárbara, Ogum a São Jorge? De onde tiram alguns evangélicos a ideia de orar para que um copo d’água abençoe alguém? Essas coisas são tão coerentes quanto João Gilberto lançar um CD de heavy metal.

No Cristianismo baseado no que a bíblia diz (e não em pastores, bispos, bispas, profetas, papas etc.) o mundo espiritual tem apenas três populações: Deus (Pai e Espírito Santo), anjos e demônios. Só. Não há espaço para almas de gente morta que vaga por aí passando mensagens, incorporando, atormentando, pintando, escrevendo (Zíbia Gasparetto que o diga...) e tudo mais. 

A visão bíblica entende que a movimentação espiritual vem de “cima” ou de “baixo”, e se alguém vê e conversa com um avô que já morreu, ele vê e conversa com um demônio travestido de avô, por mais que sejam “coisas boas e que só ela sabe” que ele venha dizendo. “O próprio Satanás se transfigura em anjo de luz”, diz o apóstolo Paulo de Tarso em II Co. 11:14. O cristão baseado na bíblia também não acredita em reencarnação: “aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo" (Hebreus 9: 27). Logo, se um espírita que crê na conversa com mortos, na mediunidade e na reencarnação, diz que também é católico (cristão), como ele explica essa fé contraditória?

Se as mães-de-santo recebem e fazem consultas aos orixás, que são espíritos-ancestrais-divinizados-africanos-que-correspondem-à-natureza-e-que-têm-sentimentos-humanos (?!), como podem querer lavar as escadas de uma igreja cristã, cujo Deus classifica todos esses orixás como demônios? Se alguém se abala para querer chegar perto do papa Francisco (fé católica/cristã) e vai estar no dia 31 de dezembro saltando sete ondas em Copacabana, jogando flores pra Iemanjá (demônio na visão cristã), como se explica essa doidice? Simplesmente não faz sentido, nem no mundo terrestre e nem no espiritual. 

Sou a favor do ecumenismo, mas nunca do sincretismo religioso. Misturar fés díspares é ignorância no estrito sentido da palavra, mas também adicionada de preguiça (de pesquisar) e modismo (todo mundo faz, logo eu também faço). Pra tudo na vida as pessoas buscam especialização, então por que a fé é uma maçaroca disforme? Ter fé é muito importante. Mais ainda, é ter uma fé cuja explicação tenha começo, meio e fim. Sempre lembrando que, no fim das contas, o mais importante é o amor, na vida e na prática.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Defensores do Carandiru

Lavagem interna com deter-gente orgânico
Em 1992, a polícia matou 111 presos (e olha que interessante: eles já estavam presos!) no Carandiru, com tiros na maioria apontados para o peito e cabeça (execução). Como se sabe, presidiários não portam armas de fogo nas celas, nem em rebeliões. Alguns poucos responsáveis estão sendo julgados agora, agosto de 2013, e é vergonhoso o que eles dizem: "tinha certeza que todos morreríamos ali. Eu estava com muito medo". 

O camarada treina por anos, estuda, usa uniforme de proteção, escudo, capacete, arma de fogo, e quando entra num presídio para acabar com uma rebelião - na ala de ladrões novatos - fica com medo? "Meu escudo foi atingido por um projétil". Ah, levou um tiro no escudo? Então tá certo, pode matar todo mundo, né? "Gritávamos para eles largarem as armas e entrarem nas celas, mas eles efetuaram disparos contra a tropa".

Uns 15 detentos "feridos"...
Se o preso não obedeceu, o procedimento é matar. "No confronto conosco, imagino que foram feridos uns 15 detentos". Jura? Nas fotos parece um pouco mais... O pior é que os comentários dos leitores são ainda piores: "adote um estuprador, latrocida ou um traficante", "foi um exagero por parte da PM? Pode até ser”, "e os pais de família que foram assassinados ultimamente?".


Esse tipo de mentalidade é como diz o Caetano: "Você é burro cara, que loucura! Como você é burro! Que coisa absurda". A pessoa justifica a violência do Estado pela violência praticada pelo delinquente. Ou seja, torna o Estado delinquente também. Nesse argumento, devemos então concordar com um desvio ou outro de dinheiro pelo Estado, afinal, vira e mexe o pessoal também não devolve um troco aqui ou ali.


Claro que ninguém quer adotar ladrão. Ninguém acha bonito ser vítima de assalto, latrocínio etc. Todos ficamos revoltados com crimes e a polícia é nosso socorro sempre. Mas, não é por isso que ela deve provocar execução em massa, gerando poças com mais de 10 cm de altura só de sangue em celas e corredores. O que se busca não é a reedição do Código de Hamurabi ou "direitos humanos dos bandidos". O que se quer são direitos humanos, e só. Pra todos. Sejam policiais, pessoas comuns ou presos.
Partido Nazista ficaria orgulhoso da polícia brasileira
Diga-se de passagem, vez ou outra a molecadinha de classe média vai parar em presídio por um ou dois dias, que sejam, porque fez alguma besteira. Imagine se uma ação "justa" como a do Carandiru tivesse "ferido" um desses moleques? Será que seria considerado certo também? Será que se o tal do pedreiro Amarildo, no Rio de Janeiro, fosse um universitário do Leblon, alguém se importaria?

Quem aplaude o massacre do Carandiru deveria assumir de vez que simplesmente despreza pobres e/ou pretos, e ficaria feliz se todos fossem mortos, porque não significam nada e nem gente são. Uma postura de fazer inveja a
Heinrich Himmler. Se a Justiça não condenar esses policiais os bons policiais terão sua imagem ainda mais manchada, e o extermínio de presos que chamou atenção no mundo todo vai sair de graça.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mudou a cor da grama


Pode parecer idiotice. Mas a verdade é que estou tão acostumado com a cultura da Rede Globo aberta que se a Olimpíada não passa lá, parece que não está acontecendo de verdade. Fica distante. A Globo e o Galvão Bueno estão cobrindo a Olimpíada via Globosat, mas não é a mesma coisa. 

Lá, com seus convidados, parece que ele está no quintal, no lavabo, não é como se estivesse na sala de visitas agitando, gritando, esperneando e fazendo o povo brasileiro virar uma torcida de verdade, com sentimento e sofrendo por seus atletas. Ele é chato? É. Mas não há locutor com maior empatia com a nação brasileira do que ele... Gostem ou não.

O brasileiro nunca foi muito entusiasta de esportes olímpicos, mas aos poucos essa tradição vem crescendo. Prova disso é que as últimas duas Olimpíadas tiveram as duas maiores delegações brasileiras enviadas aos jogos: em Londres são 259; na China eram 277. E, se tem alguma emissora com papel determinante no processo de “olimpização” brasileira, é a Globo. A Record, detentora dos direitos na TV aberta, está fazendo uma cobertura ok. Acho ótimo que eles melhorem cada vez mais e representem uma alternativa na TV aberta, empurrando a Globo na parede. Mas, ao mesmo tempo, fico feliz em saber que a Copa do Mundo de Futebol será transmitida pela Globo em 2014, 2018, 2022. Se não fosse pela qualidade profissional dessa emissora mundialmente reverenciada, diria que “globodependência” é quase psicológica.

Atmosfera olímpica

Galvão. Ele mesmo.
Galvão. Ele mesmo.
Uma questão de tradição. Enquanto telespectador, a informação pode ser conseguida do mesmo jeito, na internet, ou depois de achar a Record na TV (em casa, seria canal 519? Alguém sabe de cor?). Mas quando a informação está na Globo, parece que ela vem até você, e não o contrário. Por aí, a gente ouve alguém perguntando: “Você viu o brasileiro no judô?”, e a resposta é quase sempre “não”. Parece que ninguém está vendo nada mesmo! Mas, se fosse na Globo...

O que faz diferença nesse caso não é necessariamente ter o Galvão ou uma estrutura jornalística invejável, mas, sim, ser top of mind, líder absoluta em audiência em praticamente todos os horários do dia, principalmente quando passa suas novelas esterotipadas, piegas e apelativas. As televisões são ligadas e, em geral, o primeiro canal visitado é o da Globo. Ou seja, se ela quiser, faz o povo abraçar as Olimpíadas, o que é muito mais saudável para a diversidade de modalidades esportivas do que meter goela abaixo esses trogloditas do UFC e futebol acima de todos os esportes. (In)felizmente, as Olimpíadas 2012 estão nas mãos da Record, mas até que ela se torne páreo ou lidere as preferências, queria mesmo é curtir a atmosfera olímpica que a Globo teria maior sucesso em criar.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Quem precisa de uma SUV?


Rotina de quem tem uma SUV...
Rotina de quem tem uma SUV...

Perguntas rápidas: será que o mundo tem mais espaço sobrando hoje do que há 50 anos? As cidades estão mais vazias hoje do que há 50 anos? Existem mais recursos naturais agora do que antes? Nem precisa pensar muito né? A resposta é não! A ocupação de espaço pelo homem não está mais ordenada ou justa a cada dia que passa, infelizmente. Como consolo, sabemos que milhares de pessoas engajadas (todos deveríamos ser) gastam energia, dinheiro e tempo para protestar e combater atitudes que não prezem pelo bom senso em relação aos rumos do planeta. 

Graças a Deus, baleias, golfinhos, araras azuis, mangues, bromélias, castanheiras, jequitibás e demais seres vivos em extinção têm que os defenda. Mas, enquanto isso, na vida urbana, outra grave praga vem agindo na contra-mão da história e da civilização: os carros grandes. É isso mesmo. Carros, os grandes. Aqui usei de eufemismo, porque na verdade estou falando de verdadeiros gigantes sobre rodas. Banheiras gigantescas, quase deformadas e desproporcionais que chegam a quase cinco metros de comprimento por dois de largura. Medidas de um razoável dinossauro triceratops. Nesses “carros” podem até caber sete pessoas, mas é quase impossível achar algum andando por aí com mais de duas. É a febre dos SUVs (Sport Utility Vehicle) que dominou corações, mentes e ruas. 

Tudo bem, tudo bem... Podem justificar dizendo que são carros para viver na cidade e também encarar terra e lama. Aham, sei. Mas afinal, todos os que têm SUV são do tipo aventureiros e vivem em terras alagadiças? Uau! O ecoturismo deve realmente estar em alta! Convenhamos, a maioria das pessoas (não entram na lista famílias realmente grandes e fazendeiros genuínos) compra SUVs por um desses três motivos: 1) Querem aparecer com uma geringonça enorme nas ruas. 2) Pretendem compensar a reduzida dimensão de algum órgão do próprio corpo. 3) Porque se rendem àquelas toscas propagandas em que o carro vem todo selvagem, abrindo picadas na mata, derrapando na lama, saltando crocodilos e pula nervoso em uma estrada asfaltada, pronto para correr em direção a uma cidade completamente vazia que está no horizonte, desenvolvendo 150 km/h (velocidade proibida até em estradas), desfilando toda sua testosterona. Realista não é mesmo? Parece piada, mas funciona pra muitos. Ok. Você gosta? Acha bonito? Tem dinheiro? É um fetiche?

Esse aí já ganhou de todo mundo
 Compre e seja mais um a ocupar quase uma faixa e meia nas já abarrotadas ruas de São Paulo. Seja mais um a impedir com seu tamanho que as motos passem livres pelos corredores. Seja mais um a impedir que a pessoa do carro estacionado ao lado tenha o direito de abrir a porta. Seja mais um a estacionar em seu prédio e deixar ou o bico ou a bunda do carro para fora, atrapalhando a passagem de todos os demais. E pra seu próprio benefício, seja mais um a rodar horas até achar uma vaga para jamantas estacionarem por aí. Sem falar que essas coisas são tão altas que, como disse um amigo meu, devem provocar vários atropelamentos e nem percebem, porque não dá pra enxergar quem está embaixo. 

Todo esse drama não é apenas a perspectiva de quem acha que certos sãos os europeus, com carros pequenos, práticos, ágeis, realmente inteligentes. As cidades realmente não precisam de SUVs (apesar de as montadoras continuarem a querer mais dinheiro) e na verdade nem quem às têm realmente precisam delas. As cidades estão superlotadas! Metrôs, ônibus, ruas, avenidas, todos temos que nos espremer em algum momento para ir de um lugar a outro. Logo, aumentar a pressão e comprar um carro do tamanho de dois só pra satisfazer o status egocêntrico é lamentável. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), São Paulo tinha, até abril, 7.259.834 veículos tentando se deslocar pela cidade, e aí vão carros normais, ônibus, caminhões, reboques, camionetas, caminhonetes, motos diversas etc.

E aí, cabe mais um... bem grande?
O Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran) diz que, na Capital, a velocidade média no horário de pico das manhãs de 1980 era de 27 km/h. Em 2008 caiu para 17 Km/h. A média anual de congestionamentos nas manhãs, em 2001, era de 71 Km. Em 2011 já chegamos a 80 km. Ou seja, continuando esse ritmo, a coisa toda vai parar de vez em uns 15 anos. 

Diante dessa maçaroca toda, enquanto movimento pró-bicicletas e ciclovias luta pra ganhar espaço e otimizar a vida no asfalto (além de contribuir com zero emissão de carbono), vem alguém e conclui: “não preciso de tanto espaço no carro, mas vou comprar um carro gigantesco assim mesmo. Tá na moda e impressiona as gatinhas”. Isso é praticamente um crime! Esse mesmo tipo de egoísmo é o que impede países ricos de abrir mão de seus lucros e investir dinheiro em países em desenvolvimento. É o egoísmo que faz as madeireiras seguirem acabando com a Amazônia e Mata Atlântica, só pensando no lucro rápido. Se você tem um SUV porque realmente cruza zonas rurais ou porque sua família é realmente grande, menos mal. Mas se você tem um desses por algum desses outros motivos, pare e pense, pelo menos: “preciso mesmo disso?”.